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Cusco e Machu Picchu, maravilhas dos Andes

Por Paula Rodrigues – Autora do Orfã da Ofélia

Quando pequena, numa época em que mal sabia ler, dois tipos de livros aguçavam minha imaginavação: os de biologia, cheios de animais exóticos, e os de história antiga, com civilizações à frente de seu tempo, construções incríveis e inúmeros mistérios.

Tentava imaginar como era a vida no antigo Egito, na Grécia, no Império Romano, na América pré-colombiana. Talvez tenha sido assim que Machu Picchu entrou para minha “lista de lugares a conhecer”.

 

Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas

Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas

Os planos para visitar nossos vizinhos andinos começaram com pesquisas pela internet e pelas conversas com amigos. A maioria dizia que não era preciso reservar nenhum passeio com antecedência, pois a oferta era imensa, mas não consegui correr o risco e acertei tudo com uma agência peruana por e-mail. Realmente a prudência foi desnecessária. Há infinitas agências de turismo por lá.

Para chegar a Machu Picchu, é preciso passar por Águas Calientes, que fica no pé montanha onde foi construída a cidade . O vilarejo não tem muitos atrativos, mas recomendo dormir por lá para pegar um dos primeiros ônibus que sobem até a antiga cidade e tentar ver o nascer do sol lá do alto. Eles começam a circular às 5 horas da manhã e o trajeto não leva meia hora. O ponto de ônibus fica próximo à estação de trem por onde se chega à cidade.

Mas voltemos um pouco na narrativa. Antes do clímax, é preciso falar de Cusco.

Primeira parada: Cusco

Igreja de São Miguel, na Plaza de Armas de Cusco

Igreja de São Miguel, na Plaza de Armas de Cusco

Cusco é a principal cidade próxima a Machu Picchu. Fundada por volta do século XII, se tornou capital do Império Inca, seu mais importante centro administrativo, cultural e religioso, conectando as quatro grandes regiões de seu vasto território. Nos dias de hoje, Cusco ainda mantém sua característica de conexão e é ponto de chegada da maioria dos turistas que visitam o país, por conta de seu aeroporto internacional e suas estações de trem que levam passageiros por todo o Vale Sagrado até Águas Calientes, a última estação antes de Machu Picchu.

A cidade é pequena, cercada por montanhas e fica numa altitude de 3400 metros. Logo que se chega é possível sentir os efeitos da altitude – o mal-estar é conhecido por lá como “soroche”. Algumas pessoas sentem dor de cabeça, outras náuseas e até diarreia, além do cansaço e falta de ar. Segui a recomendação de evitar bebidas alcoólicas e comidas gordurosas nos dois primeiros dias e tomar chá de coca sempre que possível. Funcionou.

Vale registrar que o fôlego na altitude não é o mesmo e grandes esforços físicos devem ser feitos apenas após uns dias de aclimatação. Portanto, é bom curtir um pouco Cusco antes de enfrentar as escadarias de Machu Picchu. (Sim, os jogadores de futebol que reclamam que perderam para a altitude em partidas nos Andes não estão mentindo!)

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Cholas e lhamas circulam nas ruas de Cusco

Cholas e lhamas circulam nas ruas de Cusco

À primeira vista, Cusco lembra a nossa Ouro Preto (MG), com seu centro histórico de casarões de dois andares, ruas de paralelepípedos e grandes igrejas católicas, imponentes ao redor da Praça das Armas. Entretanto, logo é possível perceber como a cultura andina faz parte do DNA do lugar, seja pelas pessoas, pelo colorido de suas roupas, pelas lhamas que passeiam entre os transeuntes, pelas ruínas e construções.

Os peruanos são realmente orgulhosos de sua história, da grandiosidade do antigo império e fazem questão de não esquecer de tudo o que foi dizimado e saqueado pelos espanhóis. “Aqui era o Templo do Sol, mas foi destruído para virar um mosteiro”, “Essa igreja foi construída sobre o Templo da Lua”, “Antigamente, essa muralha era revestida de ouro. Não sobrou nada”, são frases comuns entre os guias turísticos. É quase impossível não alimentar o Che Guevara que vive dentro da gente.

A arquitetura da cidade é uma mistura de ruínas pré-colombianas e construções coloniais – os alicerces originais, construídos pelos incas para suportar os tremores comuns na região dos Andes, foram mantidos. Assim como em outras cidades peruanas, as construções de pedra levam a cor da geologia da região. E Cusco é vermelha.

Há diversos passeios que podem ser feitos na região e o mais indicado é começar pelas ruínas que ficam dentro da cidade e seus arredores. Locações como os templos de Qorikancha, o centro militar Sacsayhuaman, os aquedutos de Tambomachay, entre outros, estão entre os roteiros de diversos city tours oferecidos pelas agências locais.

Gastos e pechinchas em Cusco

Enquanto no Brasil a prática da pechincha é mais comum em feiras livres ou mercados informais, no Peru ela é uma regra geral. Os comerciantes já trabalham pensando em negociar os preços no ato da venda. É cultural. Logo no aeroporto de Cusco, por exemplo, os taxistas disputam ferrenhamente os passageiros; os carros não têm taxímetro e o valor final é sempre acordado no ponto de partida da corrida. Apesar da muita oferta na porta do aeroporto, o melhor preço era o da empresa conveniada, que contratei lá dentro.

O milho roxo, um clássico peruano, pode ser encontrado nos mercados cusqueños

O milho roxo, um clássico peruano, pode ser encontrado nos mercados cusqueños

O Real é quase equivalente ao Nuevo Sol, em termos de câmbio, mas acaba valendo mais do que aqui, pois as coisas são mais baratas no Peru. Cheguei a levar dólares para comprar moeda por lá, mas acabei usando mais os caixas eletrônicos Global Net, em que se pode sacar a quantia desejada direto na moeda local. Só é preciso habilitar com antecedência o cartão de débito para saques internacionais.

Uma dica para economizar é procurar lojas e restaurantes um pouco mais afastados da praça principal, a duas ou três quadras. É possível, por exemplo, encontrar menus turísticos que incluem entrada, prato principal e sobremesa ou bebida por R$ 10 ou menos. Sopas, milhos, batatas, quínua e frango são itens que aparecem com frequência nos cardápios.

A cultura da pechincha, é claro, está impregnada também em restaurantes e lojas de artesanato. O ideal é nunca comprar no primeiro lugar, pois os preços podem variar mais do que 50%. Se possível, visite os grandes mercados, que vendem desde carne e verduras até roupas e lembrancinhas a preços mais em conta. O passeio também vale para conhecer um pouco mais do dia a dia do povo local e as centenas de variedades de batatas e milhos que são produzidos por lá.

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Em Cusco, fiquei hospedada numa pousada aconchegante chamada Casa Elena (rua Choquechaca, 162). Não tinha wi-fi, nem eventos de integração, mas oferecia um ótimo café da manhã, era silenciosa e as camas confortáveis. Sem contar que fui recebida com xícaras de chá de coca fresquinho para combater os efeitos do “soroche”.

No Vale Sagrado

Ollantaytambo, no Vale Sagrado dos Incas

Ollantaytambo, no Vale Sagrado dos Incas

Em meu segundo dia em Cusco, optei por um passeio pelo Vale Sagrado, como ficou conhecido o vale do rio Urubamba. Seu ápice é a cidade de Ollantaytambo, a 60 km de Cusco, que costumava ser um importante polo agrícola do império. Lá a gente aprende mais sobre o cultivo em terraços, nas encostas das montanhas, e os microclimas que variam conforme a altitude e a incidência de vento e sol.

Ollantaytambo realmente impressiona e é um grande aquecimento para o que vem depois. Dali, é possível pegar um trem para Águas Calientes ou se aventurar por uma das trilhas incas que levam até Machu Picchu a pé, recomendadas somente para quem se anima a caminhar por quatro dias, montanha acima, sem banho, banheiro e com pouco oxigênio.

No meu caso, optei pelo trem, que peguei diretamente em Cusco. A viagem dura 3h30 e, mesmo o trem mais simples, é confortável. O caminho é bonito, entre montanhas e rios e permite perceber a transição da paisagem andina para floresta tropical. De repente, me peguei pensando “ei, conheço essa planta!”. Estava adentrando os limites da Amazônia peruana.

Ollantaytambo é um bom aquecimento antes de Machu Picchu

Ollantaytambo é um bom aquecimento antes de Machu Picchu

Machu Picchu, uma maravilha do mundo moderno

Para quem cresceu assistindo Indiana Jones, é inevitável se imaginar em tramas parecidas com as de seus filmes. Há histórias de rituais realizados nos solstícios e equinócios e até de sacrifícios humanos. Os Incas dominavam com maestria a arquitetura e a astronomia e seus feitos podem até nos fazer questionar se todo aquele papo de ajuda extraterrestre não é mesmo verdade.

Segui à risca a recomendação de subir a Machu Picchu às 5 da manhã e, apesar do sol ter nascido atrás das nuvens naquele dia, o horário foi também ideal para fugir da multidão de turistas que começa a se acumular a partir das 10 horas. Fica mais fácil contemplar a cidade vazia (e as fotos ficam muito mais bonitas).

Entrar no Parque Arqueológico de Machu Picchu é uma experiência inesquecível e difícil de explicar. Fiquei com vontade de chorar, mesmo sem saber exatamente por que. A vista do primeiro mirante causa grande impacto, pela grandiosidade de uma cidade inteira preservada por centenas de anos e também pelo fato de ser um cartão postal tão presente em nosso imaginário.


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A “cidade perdida dos Incas” reúne diversos templos (do sol, da lua, da Pachamama, a Mãe Terra dos andinos…), residências, postos de observação, sistemas de distribuição e armazenamento de água (que funcionam até hoje!), área agrícola. Tudo muito preservado, uma vez que a cidade ficou escondida dos estrangeiros até 1911. Seus pedreiros e arquitetos são conhecidos pelo trabalho minucioso de corte, polimento e encaixe das pedras, que produziu construções resistentes ao tempo.

Até hoje a história de Machu Picchu segue envolta em mistérios. Entre as teorias que explicam sua origem, no fim do século XV, as mais populares dizem que foi construída como um refúgio para o imperador ou como uma cidade de importância religiosa.

O número de visitantes diários que entram no parque é limitado e é melhor garantir o ingresso com antecedência, principalmente na alta temporada, que vai de maio a setembro. É possível adquiri-lo diretamente no site oficial www.machupicchu.gob.pe ou por agências de turismo. De dezembro a março, chove bastante e pode haver dias em que o parque não abre por esse motivo.

Não é permitido entrar em Machu Picchu com comidas e bebidas. Se entrar, pedirão que as consuma fora do parque e, mesmo assim, é bom levar algum suprimento. Há apenas uma lanchonete oficial e a comida é bem cara. Água, chocolate, balas ou chá de coca são bem-vindos. Capas de chuva também.

Há a opção de subir na montanha Wayna Picchu, que fica ao fundo da vista mais famosa da cidade; o limite de visitantes é mais reduzido e é preciso comprar ingresso à parte. Optei pelo pacote completo e agendei minha subida logo às 7 da manhã. Subir o Wayna Picchu não é das tarefas mais fáceis, por suas escadas estreitas, trechos de lama e ar rarefeito. Para uma pessoa semi-sedentária como eu, foi um pouco puxada – 1h30 para subir e 50 minutos para descer –, mas vale à pena. (Ou, pelo menos, essa é minha resposta agora que estou em casa, de banho tomado e descansada, contemplando minhas fotos incríveis.)

Machu Picchu vista do alto do Wayna Picchu

Machu Picchu vista do alto do Wayna Picchu

As paisagens vistas do alto de Wayna Picchu são lindas e há um silêncio profundo, longe de cidades, automóveis ou animais. A subida pode ser um momento reflexivo e compensador, um rito de superação, talvez. No topo, algumas pessoas aproveitam para meditar.

Depois de visitar o Peru, me peguei perguntando mais de uma vez por que não o fizera antes. Sua história, sua cultura, seu povo, as tramas detalhadas e coloridas de suas roupas não saem da minha imaginação. A devastação espanhola diante da civilização Inca também não. E é triste imaginar tudo que foi perdido.

No Peru, também existem outros destinos interessantes, como a capital Lima ou a cidade de Arequipa, próxima ao Vale do Colca, onde os condores deslizam no ar. Do passado inca, Machu Picchu é mesmo o que há de mais preservado no país e não hesito em dizer que merece mais de uma visita. É um lugar único.

8 Comentários

  1. UAU, que viagem incrível, ótimo relato. Visitarei, mais pelo meu amor a história, do que por viagens, rsrsrs

  2. fantastico, obrigada pelas dicas!!!!!

  3. Juvenal Rondan - Viagens Machu Picchu

    Olá gente!
    Primeiramente parabenizo pelo trabalho que fiz em ajudar aos brasileiros que desejem conhecer Machu Picchu, quem escreve é um amante da cultura brasileira e graças a deus já teve a sorte de morar no Brasil por um bom tempo, agora voltei ao Peru – Cusco para mostrar a todos os brasileiros que desejem conhecer a terra dos incas.
    Se alguém deseja algumas dicas e recomendações pra a sua viagem, sera tudo um prazer ajuda-los em realizar o sonho de conhecer Machu Picchu Cusco, Lima, Lago titicaca, Arequipa, Nazca, Paracas, Puno, Trujillo e outros destinos que ainda não foram explorados pelo brasileiros.

  4. adorei o relato e as fotos. O Peru é demais! Em 2014 estive lá, fui de ônibus, São Paulo x Lima, uma aventura e tanto; Em 2016 voltarei com certeza, já estou programando tudo. abs a todos

  5. Juvenal Rondan - Viagens Machu Picchu

    Para as pessoas que estão percorrendo a Trilha Inca e Trilha Salkantay levem um cantil ou até mesmo garrafa pet, pois é de extrema importância estar hidratado durante toda a viagem, seja na trilha Inca ou na Salkantay. Em alguns trechos há pequenos riachos onde você pode encher seu recipiente; portanto leve também um purificador de água (líquido ou em pastilhas – do tipo Hidrosteril). Isso não faz volume, não custa caro, não pesa e pode evitar uma diarréia!
    Durante a noite geralmente é frio, ainda mais na época das geadas, que é muito frio próximo aos nevados, registrando temperaturas abaixo de 0, sendo assim é importante ter um saco de dormir. Se você não quiser levá-lo (por causa do peso e volume), pode contratar com a sua agência ou operadora por que normalmente já costumam alugá-los, dá pra pechinchar pedindo para incluir no que você vai pagar. Eu levaria o meu, acho uma coisa meio pessoal – risos. Dificilmente você vai conseguir alugar um de “primeira mão”. Boa Viagem!!

  6. freddy viagens machu picchu

    Porque escolher Peru para sua próxima viagem?
    Cada dia as pessoas se perguntam para onde quiserem viajar na sua próxima férias. Convido-lhes a visitar Peru. Um país mágico e incomparável que durante os últimos anos teve uma evolução favorável a nível econômico, cultural, social e turístico.
    As razões de porque deveria visitar Peru é porque possui uma das 7 maravilhas do mundo moderno, Machu Picchu, a cidadela perdida dos Incas do século XV que foi descoberta no século passado, você visualiza a harmonia da natureza junto com o trabalho perfeito logrado na sua arquitetura.

    Por outra parte a riqueza natural e cultural do Peru é diversificada e que tudo o mundo pode apreciar em suas manifestações culturais expressadas em seu folclore, gastronomia, costumes e tradições que ainda os peruanos preservam além do que a modernidade muda tudo o jeito de vida.

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