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Lisboa tem muitas atrações além do roteiro turístico tradicional
Lisboa vista do Jardim do Torel – foto: Olívia Pedroso

O que fazer em Lisboa além do óbvio: os segredos da capital de Portugal

Marcos Grinspum Ferraz

Portugal está na moda. Especialmente Lisboa, que além de ser uma das mais belas, ensolaradas e seguras capitais da Europa, mantém ainda um custo de vida relativamente baixo e oferece uma intensa vida cultural, uma infinidade de locais para se visitar, comer bem e sair à noite.

Após vários anos de crise econômica, Portugal voltou a crescer, e uma efervescência se faz sentir nas ruas da capital.

Como qualquer cidade que fica na moda, porém, Lisboa começa a ver vários de seus pontos mais interessantes cada vez mais lotados de turistas, o que pode tornar a visita menos agradável e, muitas vezes, os preços mais altos.

Por isso elencamos aqui uma série de locais menos dominados pelo turismo, e em geral mais baratos, para quem gosta de fugir do óbvio quando viaja por outras terras.

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ATRAÇÕES TÍPICAS DE LISBOA

O Castelo de São Jorge é uma das atrações turísticas mais conhecidas de Lisboa

Castelo de São Jorge, em Lisboa – Stefan Didam – Schmallenberg

Isso não significa que não se deva ir à praça do Comércio, passear na Baixa e no Chiado, andar na avenida da Liberdade, se perder pelas vielas da Alfama, entrar no Castelo de São Jorge, no Mosteiro de Jerónimos e comer o tradicional pastel de Belém. Sugerimos apenas uma série de outras possibilidades para tornar a experiência lisboeta mais interessante.

Antes de dar as dicas por região da cidade, vale destacar aqui alguns pontos.

Primeiro, Lisboa é relativamente pequena (cerca de 500 mil habitantes), e muitos trajetos podem – e valem – ser feitos a pé. O metrô tem apenas quatro linhas, mas é muito útil para trajetos mais longos (a passagem custa atualmente 1,45 euros), assim como os comboios (trens) e ônibus.

Segundo, um rápido dicionário útil para estrangeiros: tascas são os tradicionais e populares restaurantes de comida portuguesa, que servem refeições, petiscos, doces, café, cerveja e vinho. Os preços costumam ser decentes, especialmente o dos pratos do dia.

Vamos recomendar aqui algumas tascas, mas quase todo quarteirão tem alguma com boas comidas; cervejarias não são bares especializados em cervejas, mas restaurantes que servem pratos de peixes, frutos do mar e petiscos. Podem ser chamadas também de marisquerias. Por fim, pastelarias não servem pastéis salgados; estão mais para padarias, que servem os tradicionais pastéis de nata portugueses.

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No centro de Lisboa

Os pasteis de nata são um dos doces típicos de Portugal que vale comer em Lisboa

Pasteis de nata na manteigaria – foto: Marcos Ferraz

Toda a região central, mesmo que cheia de turistas, vale um bom passeio.

No Rossio, tome uma ginjinha – tradicional licor feito de uma espécie de cereja – na Ginja Sem Rival, uma espécie de pequena taverna local. É a mais saborosa – na opinião deste que vos fala –, e menos turística que a vizinha A Ginjinha. Pode-se pedir uma dose do licor “com elas” (as cerejas) ou “sem elas”.

Não muito longe dali, o Jardim do Torel é uma praça relativamente protegida, com seu espaço dividido em pavimentos que descem uma colina. No mais baixo deles há um agradável café, com bancos para se sentar e observar a vista panorâmica da cidade.

No Bairro Alto, área com a vida noturna mais agitada da cidade – comparável apenas ao vizinho Cais do Sodré –, a Artcasa é um espaço com exposições, bar, bons shows e festas (fique atento às apresentações de músicos africanos).

Como boa parte dos espaços mais interessantes da vida cultural alternativa da cidade, a Artcasa é uma associação, o que significa, em geral, que os preços são baixos e a programação voltada à cena independente.

A Zé dos Bois, ali perto, é uma galeria de arte e casa de shows que também tem uma programação intensa, além de um terraço ótimo para tomar uma cerveja nas noites quentes.

Ainda no Bairro Alto, a Calçada do Combro é uma rua bastante turística, mas que vale uma caminhada.

Ao menos para comer em alguma de suas tascas – Casa da Índia, Príncipe do Calhariz e Zebras do Combro são garantidas –, seguir para um café e pastel de nata quentinho na Manteigaria (que toca um sino a cada fornada que sai) e, para quem tem tempo na cidade, ver um bom filme no tradicional cinema de rua Ideal.

Na Alfama, uma das regiões mais tradicionais de Lisboa, se perca pelas vielas sem pressa, e não deixe de ver as ruínas do Teatro Romano, edifício construído no século I d.C que, após mais de mil anos soterrado, foi redescoberto no século XVIII. Hoje o local é um dos cinco espaços administrados pelo Museu de Lisboa.

Perto dali, às terças e sábados a tradicional Feira da Ladra reúne centenas de comerciantes de antiguidades, artesanatos, roupas, livros, discos e todos os tipos de artigos (principalmente) usados.

No agradável bairro da Graça, vizinho da Alfama, o Miradouro de Nossa Senhora do Monte tem uma das mais belas vistas de Lisboa (veja bem, não é o famoso Miradouro da Graça, mas bem perto). Há muitos miradouros com vistas incríveis na cidade, mas não deixe de ir neste. Ali perto, o Damas é mais uma associação com boa comida, bebida e shows à noite.

Das Amoreiras à Madragoa

Viela perto da rua de São Bento – foto: Olívia Pedroso

À oeste do centro, ainda perto, estão alguns dos bairros mais bonitos e agradáveis de Lisboa.

O Jardim das Amoreiras é uma praça tranquila, com um pequeno quiosque, e fica ao lado do Museu da Água, com seus fascinantes Aqueduto das Águas Livres e Reservatório da Mãe D’Água das Amoreiras. O largo do Rato, ali ao lado, abriga a clássica tasca Rodas.

O Jardim da Estrela é outra praça que vale a visita. Um pouco maior, com alguns gramados, é um bom local para fazer um piquenique. A algumas quadras dali, o moderno Mercado do Campo de Ourique, com barracas de frutas, bons restaurantes e docerias, é uma alternativa ao turístico Mercado da Ribeira, no Cais do Sodré.

A Rua de São Bento reúne, ao longo de quase toda sua extensão, dezenas de antiquários e galerias de arte, das mais clássicas às mais alternativas. Uma delas, a Zaratan, expõe interessantes mostras de arte contemporânea e design, além de apresentar shows de música independente em uma pequena sala ao fundo de seu espaço.

Descendo a rua de São Bento, na esquina com a rua Nova da Piedade um pequeno mercado abriga a Wurst Salsicharia Austríaca, que com suas salsichas orgânicas e artesanais é ótima opção para quem quer descansar um pouco das tascas e cervejarias portuguesas.

Nesta ruazinha está localizada também a pequena Gelateria Nannarella, uma das melhores e mais concorridas sorveterias da cidade – forma filas que viram a esquina nos fins de tarde. Pegue o seu gelado e vá tomar na vizinha Praça das Flores (Jardim Fialho de Almeida), vale a pena.

Um pouco mais perto do Tejo, na mesma região, está a Madragoa, bairro popular que parece, em boa parte de suas vielas, ter ficado parado no tempo. As roupas penduradas nas janelas, as ruas de paralelepípedo e os senhores e senhoras que circulam compõem a paisagem de uma Lisboa tradicional que vale a pena ser conhecida. Ali, coma na Varina da Madragoa ou em algum restaurante na rua da Esperança.

Avenida Almirante Reis

O revitalizado Largo do Intendente – foto: Olívia Pedroso

A partir da região central, saindo de Martim Moniz, a avenida Almirante Reis percorre – em linha reta – alguns dos bairros mais interessantes e multiculturais de Lisboa.

O primeiro deles é a Mouraria, que abrigou uma grande comunidade muçulmana desde a Idade Média e hoje reúne imigrantes angolanos, moçambicanos, indianos, nepaleses, árabes e chineses, entre outros.

O bairro foi revitalizado recentemente, mas conserva seu traçado irregular, ruas estreitas e casinhas simples. Por ali, coma no moçambicano Cantinho do Aziz, nos baratíssimos chineses Clandestino ou Ilegal (em ambos vale mais a mímica do que o português e o inglês) ou em algum indiano como o Tentações de Goa.

O bairro vizinho, Intendente, era até poucos anos um dos lugares mais perigosos e degradados da cidade, como sempre contam os lisboetas. Com seu largo principal revitalizado, suas novas lojas e restaurantes, se tornou um dos bairros mais interessantes – e boêmios – da cidade.

Nas associações Casa Independente, Sport Clube Intendente ou Crew Hassan há sempre um show, uma festa ou ao menos um copo de cerveja para se tomar. Apesar de um processo de gentrificação estar ameaçando a face mais autêntica do bairro, o Intendente ainda é um dos lugares mais multiétnicos da cidade, assim como a Mouraria.

A avenida Almirante Reis segue até Areeiro com diversas tascas e cervejarias – a Ramiro é das melhores, mas chegue cedo se não quiser pegar uma longa espera –, passando pelos agradáveis bairros de Anjos e Arroios. Por ali, o Mercado de Arroios e o Jardim da Alameda Dom Afonso Henrique valem o passeio.

Bairros do Norte

A avenida de Roma, no bairro do Alvalade – foto: Marcos Ferraz

Em um roteiro turístico tradicional de Lisboa, a região mais ao Norte dificilmente é considerada. No máximo aparecem a loja departamento El Corte Inglés (bastante cara) e a Fundação Calouste Gulbenkian (com exposições e concertos imperdíveis). Mas o fato é que há muito mais para se ver a partir dali.

Com grandes avenidas e muitos prédios modernistas – que por vezes lembram Brasília ou o bairro paulistano de Higienópolis – os bairros de Areeiro, Avenidas Novas  e Alvalade abrigam uma série de espaços culturais, restaurantes, comércio e ruas agradáveis para passear.

Ainda perto da Gulbenkian, ao lado da estação Saldanha de metrô, está o clássico restaurante e snack-bar Galeto, com arquitetura modernista peculiar (meio americanizada) e que fica aberto até às 3h30 da manhã.

Ao lado está a agradável praça Jardim Arco do Cego, e não muito longe dali a Culturgest, espaço com intensa programação de shows, mostras e cinema.

A avenida de Roma abriga vários estabelecimentos interessantes, como a Livraria Barata, uma das melhores de Lisboa, e a clássica lanchonete Frutalmeidas, que lembra uma casa de sucos carioca ou soteropolitana.

Seguindo no sentido Alvalade, a discreta Real Pão de Ló é uma doceria imperdível. Se comer pão de ló pode soar um pouco sem graça, não o é neste café.

A avenida da Igreja, ao lado da estação de metro Alvalade, é uma rua cheia de restaurantes, pastelarias e vendas. Uma Lisboa sem turistas, com uma vida de bairro interessante de se conhecer.

O Salsa e Coentros, ali perto, é dos melhores restaurantes da cidade e, apesar de mais caro do que uma tasca, não é inacessível (faça reserva antes de ir).

Em meio a um bairro mais tradicional, o Popular Alvalade é um bar e casa de shows alternativo e com um ar de lugar secreto (é preciso tocar a campainha para entrar). Fique de olho na programação, que foca no rock, mas não só.

Parte oriental de Lisboa

A praça David Leandro da Silva, em Marvila – foto: Marcos Ferraz

Por muito tempo ignorada até mesmo por boa parte dos lisboetas, a região entre o centro e o Parque das Nações (que abriga o impactante Oceanário) começa a chamar a atenção com um gradual processo de revitalização urbana.

Entre os bairros de Xabregas e Marvila, uma única rua bastante extensa (com seis nomes diferentes) reúne alguns dos pontos mais interessantes da região, a começar pelo Museu do Azulejo – que além do enorme acervo de azulejos e cerâmicas, abriga em seu edifício a estonteante Igreja de Madre Deus.

Mais a frente, duas associações culturais, a EKA Palace e a Fábrica Braço de Prata, dão vida às noites desta região pacata da cidade.

Em um antigo edifício abandonado, com um grande jardim e várias salas, a Braço de Prata oferece uma programação incessante de shows, exposições, festas, sessões de cinema e lançamentos de livros. O local abriga ainda uma livraria, um bar e restaurante, abertos sempre entre quarta e sábado.

Há poucos metros dali, a pequena e simpática praça David Leandro da Silva é cercado por alguns espaços comerciais e restaurantes, como a movimentada tasca Jardim do Poço do Bispo ou o simpático Café com Calma, de decoração vintage e gostosos lanches.

Belém, um bairro histórico cheio de atrações

O MAAT, na beira do rio Tejo – foto: Olívia Pedroso

O histórico bairro de Belém abriga muito mais do que a Fábrica de Pastéis de Nata (os melhores da cidade) e o Mosteiro do Jerónimos, sempre lotados de turistas.

Belém é talvez a área com mais museus da cidade, e alguns deles valem muito a visita.

No CCB, o Museu Coleção Berardo reúne importantes obras de arte moderna e contemporânea em grandes espaços expositivos; o recém-inaugurado MAAT, na beira do Tejo, mistura artes plásticas, arquitetura e tecnologia em mostras inovadoras; vale ficar de olho no programa do Museu de Etnografia e, para quem quer ver de perto as antigas e luxuosas carruagens da nobreza europeia, entrar no Museu dos Coches, com prédio projetado pelo brasileiro Paulo Mendes da Rocha.

Para além dos museus, vale comer o pastel de cerveja vendido na mesma rua da fábrica de pasteis de nata (soa estranho, mas é bom).

A região também tem várias tascas gostosas como o Prado. E passear de bicicleta na revitalizada região à beira do Tejo, com uma bela vista, pode ser muito agradável. Há uma pequena loja que aluga bikes a preços razoáveis ao lado do MAAT.

– O que fazer em Amsterdam

NAVEGAR É PRECISO

Para além de todas as dicas específicas sugeridas neste texto, vale ressaltar que Lisboa é também uma cidade para se caminhar sem rumo, se perder nas vielas, observar os muros de azulejo, admirar o azul do céu, aproveitar o ritmo dos bairros mais pacatos ou dos mais agitados. E há sempre a beira do Tejo para caminhar ou descansar, em uma cidade que não virou as costas para o seu principal rio.

Muita Viagem

Blog com dicas e histórias de viagens.

É feito por Gustavo, jornalista, Danilo, comissário, e amigos, que vivem viajando pelo Brasil e no mundo.

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