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Em um roteiro de três dias, dá para fazer muitas coisas em Bruxelas
Bruxelas vista do Lift van de Marollen. Foto: Marcos Ferraz

Roteiro de três dias em Bruxelas, na Bélgica

Marcos Grinspum Ferraz

Capital da Bélgica e centro político-administrativo da União Europeia, metrópole de pouco mais de um milhão de habitantes, Bruxelas não se apresenta, em um primeiro momento, tão acolhedora e receptiva como outras grandes cidades europeias. Ao menos foi essa a impressão que tive ao chegar, em uma noite chuvosa, de dias ensolarados em Amsterdam e lembrar das experiências que vivi em outras capitais do continente.

Mas posso dizer também que, em pouco tempo de estada, essa sensação inicial rapidamente se dissipou, dando lugar a uma experiência bastante intensa e rica na cosmopolita cidade belga.

– Booking: Hotéis em Bruxelas

Bruxelas tem uma infinidade de ótimos museus; belos parques e praças; feiras, mercados, bares e restaurantes de todos os tipos; ruas pacatas e agradáveis em alguns bairros; ruas agitadas e cheias de vida em outros; comércio de todos os tipos, muitas vezes ligados às grandes comunidades de imigrantes que habitam a cidade; e, portanto, um vasto universo para se desbravar.

Estive por três dias em Bruxelas e obviamente conheci apenas uma parte do que a cidade pode oferecer a um visitante interessado em ver mais do que os pontos turísticos famosos. Tendo clara a impossibilidade de escrever aqui um texto do tipo “o que fazer em Bruxelas”, prefiro relatar minha experiência na cidade, excluindo os lugares que não valeram a pena e incluindo alguns a que não consegui ir, mas que me foram muito recomendados por amigos que conhecem bem a cidade.

Primeiro dia em Bruxelas

Após a noite chuvosa, o céu se abriu no primeiro dia da minha estada na Bélgica, no início do mês de junho. Pela manhã, saí do hostel – localizado próximo à estação Gare du Midi, onde não há muito para se ver – e caminhei a pé pelo Boulevard Maurice Lemonnier em direção ao centro da cidade. Ao longo do trajeto, que passa por uma região predominantemente árabe, as coisas começaram a ficar mais interessantes, dada a grande quantidade e diversidade de restaurantes, mercearias e pequenas lojas de imigrantes. Ali, inclusive, escuta-se muito mais conversas em árabe do que em francês ou holandês – línguas oficiais de Bruxelas.

A Grand Place. Foto: Marcos Ferraz

Chegar ao centro histórico da cidade, com suas imponentes praças, prédios e catedrais, é de fato uma experiência marcante. Construídos ao longo dos séculos em estilo gótico, barroco ou neoclássico, os edifícios que rodeiam as praças e se espalham pelas pequenas ruas formam uma paisagem elegante e harmoniosa na região.

Uma infinidade de restaurantes, bares, lojas, museus e hotéis tornam a área extremamente viva e atraente, por um lado, mas também excessivamente turística por outro.

Na Grand Place, por exemplo, a praça mais central e famosa da cidade, admito ter tido um sentimento dúbio de deslumbramento com a beleza arquitetônica e irritação com a quantidade de turistas tirando fotos. Obviamente que, após alguns minutos por ali, também saquei meu celular do bolso para fazer algumas imagens.

Mas não foi preciso ir longe para escapar dos restaurantes e lojas “pega-turistas” – com anúncios do tipo “o melhor chocolate do mundo”, “as melhores cervejas belgas” ou “a melhor batata frita do planeta”. A região central tem de tudo e, na estreita Rue du Marché au Charbon, me deparei com uma série de restaurantes apetitosos e com preços razoáveis. Almocei muito bem no econômico chinês Asiagrill e dali decidi ir caminhando até o Kanal – Centre Pompidou.

Espaço interno do Kanal. Foto: Marcos Ferraz

O Kanal, filial do célebre Centre Pompidou de Paris, é um museu de artes visuais, arquitetura e design recém-inaugurado na beira do Canal Bruxelas-Charleroi, em um monumental edifício que funcionou por décadas como fábrica, garagem e showroom da automobilística Citroen. Construído nos anos 1930 com traços modernistas, majoritariamente em aço, vidro e concreto, o complexo de cerca de 35 mil m2 teve suas características arquitetônicas mantidas e recebeu uma série de intervenções artísticas pensadas especialmente para o local.

Com instalações, esculturas, salas de vídeo e trabalhos sonoros, o museu impressiona tanto pela brutalidade do prédio quanto pelas obras que surgem ao longo dos “trajetos internos” propostos pelos curadores. Galpões, garagens, e até antigas salas de administração e vestiários dos funcionários foram utilizados como espaços expositivos no novo museu, que ficará aberto ao público com o formato atual até junho de 2019 e posteriormente passará por reformulação.

Cansado depois um dia de longas caminhadas, decidi procurar algo para jantar na mesma rua onde almocei, o que se mostrou uma escolha acertada. Comi no Café Charbon e segui para o quase vizinho Moeder Lambic, bar de cervejas artesanais que havia sido fortemente recomendado por um amigo que morou sete anos na cidade.

Vale dizer que na Bélgica marcas como Vedett, Chimay, Delirium, Duvel, Hoegaarden e Leffe, que chegam ao Brasil como produtos de luxo, são consideradas cervejas comuns, para o dia a dia. Vale a pena, portanto, experimentar outras das milhares de opções de cervejas belgas que não chegam até aqui. Dizem que na Bélgica é possível tomar uma cerveja diferente por dia durante quatro anos sem repetir. Por fim, voltei para o hostel pela rue du Midi, que se transforma em avenida Stalingrad, em um percurso que atravessa novamente a região árabe da cidade, cheia de bares onde se fuma o narguilé.

Segundo dia em Bruxelas

No segundo dia de viagem saí para uma longa caminhada em direção a Ixelles (uma das 19 comunas da cidade, equivalentes aos nossos distritos), passando pelos bairros de Le Marolles, Châtelain, Flagey e Matongé. Em um trajeto de cerca de sete quilômetros passei por regiões bastante distintas entre si e tive, de modo geral, a sensação de conhecer uma Bruxelas mais genuína, menos voltada aos turistas e com mais diversidade cultural do que o centro histórico.

Feira na Place du Jeu de Balle. Foto: Marcos Ferraz

A Place du Jeu de Balle, primeira parada, abriga uma vibrante feira de antiguidades ao ar livre, onde pode-se encontrar roupas, livros, louças, talheres, instrumentos musicais, quadros, máscaras africanas e todo o tipo de coisa que se possa imaginar. O mercado acontece todos os dias, com circulação maior aos fins de semana, e é rodeado pelos cafés, bares e restaurantes da praça, onde as pessoas se sentam para observar a movimentação. O CHAFF é um destes estabelecimentos, bastante agradável, onde tomei o café da manhã.

Também no entorno da praça, em uma esquina, a pequena loja Jeu de Bulles é totalmente dedicada à personagens de Histórias em Quadrinhos, com livros, miniaturas, pôsteres e outros artigos para colecionadores e admiradores deste universo. Vale aqui um pequeno parêntese, já que adentramos em um assunto bastante caro aos belgas e à sua cultura. Ao longo do século 20 foram criados por ilustradores belgas nada menos que personagens como Smurfs, Gaston Lagaffe, Spirou, Lucky Luke, Marsupilami e, o mais célebre de todos, Tintin.

Para além de dezenas de lojas de HQs (vá também na Multi BD, no centro), a cidade tem em seus muros vários grafites e murais feitos com a linguagem e os traços das histórias em quadrinhos, quando não com os próprios personagens mais conhecidos. O assunto é tão sério para os belgas que cheguei a ver, na fachada de uma galeria, livros sobre a vida sexual de Tintin… Enfim, para quem se interessa por esse universo há também o Comics Art Museum, inteiramente dedicado às HQs – não fui, mas é bastante indicado –, e outras instituições como o Museu Tintin, a 40 km da cidade.

A loja de HQs Jeu de Bulles. Foto: Marcos Ferraz

Fechando o parêntese e voltado ao trajeto do dia, saí da Place du Jeu de Balle pela pequena e simpática rue des Renards, cheia de restaurantes, e virei na rue Haute, onde caminhei até o Lift van de Marollen – elevador gratuito que leva ao palácio de Justiça, com uma bela vista da cidade. Ao lado, a grandiosa avenue Louise abriga grandes lojas internacionais, principalmente de roupas, mas não oferece nada muito diferente do que se vê em outras avenidas comerciais europeias. Não deixa de ser, no entanto, uma caminhada agradável que leva a Chatêlein.

Chatêlein é um bairro relativamente caro da cidade, com certo ar parisiense, repleto de cafés, restaurantes, lojas e galerias de arte. É uma região bastante viva e agradável, onde estão também os mais importantes edifícios art nouveau da cidade, construídos entre o fim do século 19 e o início do 20. Lá pode-se ver, por exemplo, alguns dos mais marcantes prédios projetados pelo célebre arquiteto belga Victor Horta – um dos país do estilo art nouveau – como as casas Tassel, Solvay e Matyn ou o Museu Horta, situado em dois prédios vizinhos que foram residência e estúdio do arquiteto.

Saindo dali, após cerca de 15 minutos de caminhada pela rue Lesbroussart cheguei à Place Flagey, que abriga um mercado ao ar livre com barracas de frutas, verduras, queijos, embutidos, pães e outros alimentos. Para quem quer comer ali mesmo, há também barracas com refeições prontas, entre elas a Frit Flagey. Infelizmente só fui descobrir mais tarde que essa pequena venda serve uma das mais famosas batatas fritas de Bruxelas, considerada por muitos a melhor da cidade. Em um enorme edifício art deco no entorno da praça está localizado o centro cultural Flagey, espaço dedicado à música e ao audiovisual que promove shows, festivais, exposições e sessões de cinema.

Vale a pena conhecer em Bruxelas o Museu Horta

Fachada do Musée Horta. Foto: Paul Louis/CC

Depois de comer na Place Flagey, segui pela rue Chaussée d’Ixelles até Matongé, bairro que reúne uma enorme comunidade de imigrantes africanos, vindos especialmente das ex-colônias belgas ou francesas – como Ruanda, Burkina Faso, Senegal e Camarões.

Em Matongé, que tem o mesmo nome de um bairro da capital do Congo, vale a pena se perder pelas pequenas ruas para observar o comércio de roupas, tecidos, joias, bijuterias, artesanatos, instrumentos musicais e alimentos. Um dos restaurantes mais conhecidos do bairro é o Soleil D’Afrique e, para quem busca saber mais sobre a vida cultural na região, o Centro Cultural Kuumba é um bom ponto de informações.

Depois de tanto andar, parei por algum tempo para descansar no Parc de Bruxelles, próximo ao centro da cidade e vizinho ao Palácio Real, e de lá segui para a aconchegante casa de shows Sounds, um dos vários pontos da cidade onde pode-se apreciar a afamada cena de jazz belga. Outras opções de lugares que me recomendaram – mas não tive tempo de ir – foram a Jazz Station, a The Music Village, o L’Archiduc e o La Machine. Fique de olho nas programações porque certamente há sempre algo de bom para ver.

Terceiro dia em Bruxelas

– Dicas e roteiros pela Bélgica

No terceiro e último dia da viagem passei menos tempo caminhando pela cidade e mais tempo em museus e no parque. Foi uma boa sequência do show da noite anterior começar o dia pelo Museu de Instrumentos Musicais, que em seu acervo de mais de 8 mil peças reúne grande quantidade de objetos raros das mais variadas épocas e cantos do mundo. A Bélgica tem uma longa tradição musical que inclui, por exemplo, a criação do saxofone por Adolphe Sax no século 19.

Instalado em um edifício art noveau com uma bela fachada de aço e vidro, o museu apresenta instrumentos bastante peculiares e excêntricos que revelam traços de culturas ocidentais e orientais, antigas e contemporâneas. Vale a pena pegar o audio guide para poder escutar não só as explicações sobre as peças, mas principalmente o som de cada instrumento exposto.

As moules-frites da Brasserie du Lombard. Foto: Marcos Ferraz

De lá fui para o MIMA Museum, próximo ao Canal Bruxelas-Charleroi, mas não sem antes parar para comer as famosas moules-frites belgas. Escolhi de modo um tanto aleatório – e dei sorte – a Brasserie du Lombard, que serve os mexilhões na própria panela e um prato de batatas fritas crocantes ao lado. Caiu muito bem com um copo de cerveja.

O MIMA – The Millenium Iconoclast Museum of Art é uma instituição de arte contemporânea inaugurada em 2016 que se propõe a apresentar principalmente a produção internacional mais recente. Explora diferentes manifestações artísticas criadas na era da internet, com enfoque especial na street art, em trabalhos que envolvem novas tecnologias e, muitas vezes, em obras de cunho político. Como explica o site oficial, o museu “apresenta a arte mais significativa de seu tempo e explora a história da cultura 2.0”.

Depois de ver os dois museus, decidi ir para o extremo norte da cidade conhecer o grandioso parque de Laeken, que abriga outro importante palácio real; uma enorme estufa que abre apenas três semanas por ano, a Royal Greenhouse of Laeken; e as imponentes torres chinesa e japonesa construídas pelo rei Leopoldo II. Mais do que esses pontos, no entanto, o parque vale a visita por seus bosques e enormes gramados onde as pessoas (e centenas de coelhos) descansam e tomam sol.

Ao lado do parque está localizado o Atomium, um dos mais conhecidos pontos de visitação da cidade, construído para a Expo de 1958. Edificado em ferro e alumínio, com 103 metros de altura, o Atomium é composto por nove esferas ligadas por tubos verticais. Dentro das esferas são organizadas exposições permanentes e temporárias e, na mais alta delas, há a mais famosa vista panorâmica da cidade. Observei o Atomium apenas do lado de fora, mas é uma visita bastante recomendada por turistas e locais.

O parque Laeken. Foto: Marcos Ferraz

Para fechar o dia e a viagem, de lá segui para jantar no Kokob, um restaurante de comida etíope imperdível. Ali são servidos pratos muito bem temperados – com cúrcuma, gengibre ou outras especiarias – sempre acompanhados da injera, uma espécie de crepe ou panqueca feita de farinha fermentada. É com a injera nas mãos, não com talheres, que se pega os outros alimentos – sejam carnes, peixes, frango ou vegetais – para levar à boca, acompanhados de salada, molhos e uma espécie de queijo branco.

Mesmo tendo visto tanta coisa em tão pouco tempo, ainda ficaram faltando alguns pontos da cidade – considerados imperdíveis – que não consegui ir, como o Parc du Cinquantenaire; o Museu Magritte, dedicado à obra do célebre artista surrealista belga; e o Museu Real da África Central, que reúne um enorme acervo sobre o Congo e as outras ex-colônias belgas. Talvez uma viagem de quatro dias tivesse sido uma escolha mais acertada…

About Muita Viagem

Dicas e histórias de viagens. É feito por Gustavo, jornalista, Danilo, comissário de voo, e amigos, que vivem viajando pelo Brasil e no mundo.

Um comentário

  1. Luiz Alberto Alves Cordeiro

    Particularmente gostei da Bélgica.

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