Início / Destinos / Paris, França / Roteiro Geração Perdida – Paris além do Óbvio
Entre as duas grandes guerras, Paris foi o palco da festa de ícones da cultura mundial (foto: Marina Kuzuyabu)

Roteiro Geração Perdida – Paris além do Óbvio

Depois das dicas práticas de transporte, comida, estadia para fazer uma viagem barata em Paris sem abrir mão de aproveitar tudo que a capital francesa oferece, Paris Além do Óbvio vai passear pela Cidade-Luz para mostrar os cenários e costumes que marcaram a Geração Perdida e foram registrados em filmes, fotos, livros, músicas…

Roteiro com atrações nada turísticas em Paris

A Geração Perdida

Diego Braga Norte

Paris é uma festa. A frase clichê-chiclete é o título de um livro do norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), editado postumamente em 1964.

O escritor morou em Paris no anos 20, na época entre as duas grandes guerras mundiais em que a cidade realmente era uma festa e abrigava pessoas como:  — Francis Scott Fitzgerald e sua mulher Zelda, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Man Ray, James Joyce, Cole Porter, Sidney Bechet, Ezra Pound, John dos Passos, William Faulkner, Josephine Baker e muitos outros nomes da música, das artes plásticas, do teatro, do cinema e da literatura.

O ótimo filme Meia-Noite em Paris (Woody Allen, 2011) registra de maneira convincente o estilo de vida da chamada Geração Perdida, com muito álcool, festas e discussões estéticas e filosóficas.

Em seu livro/guia de turismo E todos foram para Paris (Casa da Palavra, 2011) o jornalista Sérgio Augusto nos conta de onde veio o nome Geração Perdida (aliás, é preciso mencionar que muitos dos antigos endereços de escritores e artistas citados aqui foram compilados por Sérgio Augusto).

Voltando. A escritora norte-americana Gertrude Stein, espécie de matriarca e hostess da geração, adotou o termo após um episódio prosaico em uma oficina mecânica de Paris. Dias após levar seu carro para consertar, o mecânico encarregado ainda não dera conta do serviço e Gertrude reclamou.

O chefe da oficina, além de dar razão à cliente, ainda deu uma bronca em seu empregado: “Todos vocês que serviram na guerra são uma génération perdu!. Gertrude gostou da definição e a usou para rotular seus amigos escritores, apesar de nenhum deles ter, de fato, combatido na guerra de 1914-1918.

A escritora Gertrude Stein definiu a Geração Perdida de Paris (foto: Marina Kuzuyabu)

A escritora Gertrude Stein definiu a Geração Perdida de Paris (foto: Marina Kuzuyabu)

Hemingway gabava-se de ter “lutado” na Primeira Guerra Mundial, mas na verdade ele nunca foi um soldado, mas sim um corajoso motorista de ambulâncias da Cruz Vermelha. Ele foi ferido por um morteiro quando atravessava um campo de batalha.

Mesmo debilitado, ele ajudou a carregar e a salvar um soldado que estava também machucado, mas em piores condições. O detalhe mais nobre e importante é que o soldado era italiano, ou seja, inimigo dos compatriotas de Hemingway.

O jovem motorista norte-americano (ele tinha 18 anos à época) que um dia iria se tornar escritor famoso cumpria à risca sua missão de voluntário da Cruz Vermelha, ajudar os feridos sem se importar com a bandeira que eles defendem.

Depois dessa introdução, vamos ao roteiro. Se você é um bom andarilho, dá para percorrê-lo em apenas um dia. Porém, para melhor apreciar e curtir os locais por onde você vai andar, aconselho a dividir o roteiro Paris Geração Perdida em dois ou três dias.

Roteiro a pé pela Paris de escritores e do cinema

O roteiro a pé que fizemos por Paris, depois da parte 1 da caminhada, começa na casa em que o grande escritor Hemingway morou com a mulher e termina em uma anti-dica: um lugar que não valeu a pena na capital francesa.

Dá para fazer as três partes do roteiro a pé em um dia, mas é melhor dividir para curtir melhor o passeio no roteiro da Geração Perdida em Paris.

Meia-noite em Paris e os escritores

A Igreja Saint Étienne du Mont e os turistas na escadaria

Passeios em Paris

Uma caminhada marcada pelo cinema e literatura

Uma das casas de Hemingway em Paris

Uma das casas de Hemingway em Paris

Da Place Contrescarpe, siga alguns poucos metros pela rua Cardinal Lemoine (ver ponto A no mapa abaixo).

Ernest Hemingway morou com sua mulher Hadley no terceiro andar do número 74 da rua Cardinal, ao lado esquerdo de quem vem da Contrescarpe. Esse foi o endereço mais famoso dos vários que Hemingway teve em Paris (ponto B no mapa de Paris) e hoje há uma singela placa no local.

Um pouco mais abaixo do número 74 e alguns anos antes de Ernest mudar-se para lá, no número 71 da mesma rua, o irlandês James Joyce finalizava o totêmico livro Ulysses, obra literária seminal do século XX.

Se você, assim como eu, ficar emocionado de estar tão perto de locais onde dois de seus ídolos viveram, volte para a Contresacarpe e tome mais uma no Café des Amateurs, local frequentado pelos escritores – ambos bons de copos.

Compre ingresso online para atrações em Paris e evite filas


View Passeio a pé por Paris in a larger map

Após a birita, saia da Contrescarpe pela rua Blainville (ponto C no mapa de Paris) e siga em direção à rua de l’Estrapade. Depois de alguns metros, vire à direita na rua Clotilde. Siga em frente até a Igreja Saint Étienne du Mont.

A igreja não tem nada de mais, é apenas mais um belo templo católico dos muitos que a Europa tem. Porém, por ter sido cenário chave no filme Meia-Noite em Paris, a igreja ganhou notoriedade e hoje vive dias de celebridade.

Em suas escadas, o aspirante a escritor e protagonista Gil (Owen Wilson) é transportado no tempo noite após noite para encontrar seus ídolos Ernest Hemingway e Francis Scott Fitzgerald. Olhando a igreja de frente, a escadaria do filme é a da lateral esquerda, na Place de l’Arbé Basset.

Após a famigerada foto na escadaria (prepare-se, você não será o único turista no local), siga em direção à frente do Panthéon.

Passeios em Paris

Na calçada da rua Clovis, não estranhe se você se deparar com uma fila imensa de jovens. São estudantes esperando para entrar em uma das mais bonitas e completas bibliotecas de Paris (e, consequentemente, da Europa) e que também serviu de cenário no filme Hugo Cabret (Martin Scorsese, 2011). O acesso à Bibliothèque Sainte-Geneviève, especializada em ciências sociais, da Sorbonne, é gratuito e liberado ao público em geral, mas você vai ter que apresentar algum documento de identidade.

E para quem quiser pagar para entrar no Panthéon, aviso que não vale a pena. Entrei pois não pago (tenho credencial de jornalista internacional e posso entrar gratuitamente em todos museus e locais turísticos), mas tivesse eu gastado para ver aquilo, certamente me arrependeria.

É uma tumba gigante, com umas pinturas bregas louvando a história da França e mausoléus de grandes franceses como Voltaire, Rousseau (que nasceu em Genebra, na Suíça), Victor Hugo, Alexandre Dumas e outros. É um local fúnebre, gelado, sem graça e sem o menor charme. Esqueça. Entre ver um túmulo e viver a vida das ruas de Paris, fique com a segunda opção.

Em frente ao monstro arquitetônico chamado Panthéon, desça a rua Soufflot em direção ao Jardin du Luxembourg. Você irá cruzar duas vias grandes, a rua Saint Jacques e a Boulevard Saint Michel, uma das principais artérias do trânsito da Rive Gauche.

O papel de parede de Wilde – Paris além do Óbvio

Paris oferece inúmeros passeios culturais | – foto Marina Kuzuyaba

Na última parte do roteiro de passeio a pé por Paris, em que conhecemos lugares escondidos e diferentes da capital francesa, sugerimos uma caminhada desde a casa onde o escritor irlandês Oscar Wilde morreu até uma ótima livraria com preços bons.

Já que o roteiro Geração Perdida da série Paris além do Óbvio falou tanto de literatura, cinema e cultura, uma livraria como a  Shakespeare & Co. é o destino ideal para terminar o passeio a pé pela Cidade-Luz

Na rua Saint Andre des Arts, atente para o número 13 (ponto B no mapa de Paris), local do hotel onde, em 1900, faleceu o escritor irlandês Oscar Wilde. 

Pouco antes de morrer, ainda lúcido e com seu característico humor afiado, Wilde contemplou a parede do hotel e disse: “My wallpaper and I are fighting a duel to the death. One or the other of us has to go.”.

Não sei se outro hóspede frequente do hotel, o escritor argentino Jorge Luís Borges, chegou a ver o tal papel de parede. O escritor brasileiro Rubem Braga, porém, em uma de suas viagens à Paris (em 1950), sem saber, se hospedou no mesmo quarto em que morreu Oscar Wilde. Numa crônica deliciosa ele comprova, o papel de parede era mesmo horroroso (ainda que seja pouco provável que fosse o mesmo papel contemplado por Wilde…).


No número 28 da Saint Andre des Arts (ponto A no mapa de Paris) ficava a antiga residência de Jack Kerouac, o escritor mais emblemático do movimento Beatnik, a geração posterior à Geração Perdida. O número 46 da mesma rua foi habitado pelo poeta norte-americano E. E. Cummings.

Seguindo pela rua, você vai desembocar na Place que leva o mesmo nome, Saint Andre des Arts. Um pouco mais à frente, pare um pouquinho na Place Saint Michel, que abriga uma fonte homônima. A Fontaine Saint Michel não é lá uma Fontana di Trevi, mas também tem seu charme.

Depois de tirar algumas fotos da fonte, atravesse a Boulevard Saint Michel e siga em direção à rua de la Huchette (ponto C no mapa de Paris), paralela à Quai de Montebello.

Essa é uma das ruas dos bares noturnos e baladas de Paris. Confesso que não me animei em entrar em nenhuma delas, pois não faziam meu estilo, mas o calçadão (a via é só pedestres) estava repleto de franceses e turistas aguardando nas filas. Um dos lugares mais tradicionais da ruzinha é o clube de jazz Le Caveau de la Huchette.

A rua de la Huchette é um dos pontos da agitada vida noturna de Paris - foto: dalbera

A rua de la Huchette é um dos pontos da agitada vida noturna de Paris – foto: dalbera

Atravesse a rua du Petit Point e siga pela pequena rua de la Bucherie. A livraria Shakespeare & Co. (37 rue de la Bucherie ; ponto D no mapa de Paris) é o ponto final do roteiro.

Após visitar antigas moradias de escritores e diversos locais por onde eles passaram, penso que, assim como eu, você também ficou com fome de leitura. Aproveite, pois a livraria pratica preços mais justos que a Fnac e é especializada em livros em inglês – ideais para a Geração Perdida e turistas.

PS: A Shakespeare & Co. original foi aberta pela editora norte-americana Sylvia Beach em 1919, no número 8 da rua Dupuytren, também no bairro Saint Germain. A livraria e a livreira caíram nas graças dos escritores de língua inglesa que à época moravam em Paris.

Depois de ter seu romance Ulysses recusado por diversas editoras britânicas e norte-americanas, James Joyce publicou-o com a ajuda e o aval de Sylvia Beach, lançando-o em 1921 da livraria Shakespeare & Co. (que já estava em seu segundo endereço, 12 da rua de l’Odéon).

Durante a ocupação nazista da cidade, entre 1940 e 1944, a livraria foi fechada e seu precioso acervo foi escondido da sana incendiária e irracional dos seguidores de Hitler. Em 1951, a livraria reabriu no atual endereço, mas com o nome de Le Mistral.

O antigo nome Shakespeare & Co. só viria a ocupar lugar na fachada em 1964, após Sylvia Beach, já velhinha, ceder o nome e parte do acervo para os atuais proprietários.

Um dos viajantes

Diego Braga Norte é jornalista e nômade errante que, de quando em vez, acerta. Já morou na Alemanha, nos EUA, na França e em Assis. Autor de Iracema, mon amourParis além do óbvio, entre outras coisas.

Deixe uma resposta

O e-mail não será publicado. Campos obrigatórios *

*