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Ciclistas no Ibirapuera – Foto: Marcos Ferraz

Natureza e cultura no Parque Ibirapuera em SP

Com edifícios projetados por Oscar Niemeyer, principal parque de São Paulo reúne vastas áreas verdes, espaços esportivos, importantes museus, auditório, planetário e muito mais

Marcos Grinspum Ferraz

Conhecer um grande parque, seus jardins e sua biodiversidade; visitar museus, sejam eles de arte moderna e contemporânea ou de história e etnologia; ir a um planetário; assistir a espetáculos de música erudita ou popular; conhecer alguns dos mais relevantes projetos arquitetônicos do lugar; e ver todo tipo de gente, de diferentes origens, idades, classes sociais ou “tribos” urbanas. Possivelmente estes são alguns dos principais objetivos de um visitante que se propõe a conhecer uma nova cidade, o que costuma exigir deslocamentos por diferentes bairros, especialmente quando se trata de uma grande metrópole.

O parque visto da cobertura do MAC – foto: vcheregati

Em São Paulo, em um caso bastante atípico, tudo isso pode ser encontrado em um único local, o Parque Ibirapuera, na região sul da cidade. Um dos maiores símbolos da capital paulista e um de seus principais pulmões verdes, espaço de cultura, lazer e atividades esportivas, o parque de cerca de 1,6 milhões de metros quadrados é o mais visitado da América Latina e figura em quase todas as listas de melhores parques do mundo.

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Localizado em uma antiga área alagadiça, originalmente ocupada por aldeias indígenas – daí o nome Ibirapuera, que significa “árvore podre” em guarani –, o parque começou a tomar forma no final dos anos 1920, com a plantação de centenas de árvores para controle da umidade do solo na região. Mas foi somente em 1954, na comemoração dos 400 anos de São Paulo, que o Parque Ibirapuera foi inaugurado, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e paisagismo de Otávio Augusto Teixeira Mendes.

De maneira geral, pode-se dividir o parque em duas partes principais: uma com grande concentração de natureza – bosques, gramados e lago –, áreas esportivas e de recreação infantil; outra com os principais espaços arquitetônicos construídos, quase todos ligados por uma grande marquise, e de modo geral voltados às atividades culturais.

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Espaços abertos e biodiversidade

Na primeira parte, mais vasta, estão o viveiro Manequinho Lopes – que produz mudas para áreas públicas da cidade e oferece cursos de jardinagem –, a tranquila praça Burle Marx (concebida pelo paisagista que lhe dá nome), além de quadras poliesportivas e centenas de brinquedos para crianças.

O lago, formado principalmente pelas águas do córrego do Sapateiro e que se expande de modo sinuoso por grande área do parque, é um marco na paisagem e abriga parte da fauna local, com peixes, patos, cisnes e garças.

Lago do Parque Ibirapuera – foto: Marcos Ferraz

O Parque Ibirapuera possuí uma enorme quantidade de espécies de aves – das mais abundantes, como sabiá-laranjeira e bem-te-vi, às mais raras, como pica-pau-de-cabeça-amarela, gavião-carrapateiro e arapaçu-de-cerrado –, que podem ser vistas nas visitas guiadas mensais de observação de pássaros. Outro passeio guiado é o de observação da flora local, que possuí uma diversidade de mais de 500 espécies de árvores nativas ou estrangeiras. Para saber mais sobre os passeios, acesse o site do parque.

Ao longo de mais de 70 anos de vida profissional, Niemeyer teve uma enorme quantidade de projetos construídos ao redor do mundo. Não seria exagero dizer, no entanto, que o conjunto de edifícios do Parque Ibirapuera está entre o que de melhor o arquiteto produziu, como apontam diversos críticos e profissionais da área. É nesse grande conjunto, tombado em 2017 pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, que estão os principais espaços culturais do parque, ligados por uma grande marquise.

A Marquise iluminada durante a noite – foto: Marcos Ferraz

Com uma vasta área de desenho sinuoso (cerca de 28 mil m2), teto pintado de branco e erguido por colunas que tornam a paisagem ainda mais impactante, a Marquise é, por si só, uma das grandes atrações do parque. Com a luz que entra pelas laterais ao longo do dia ou com a iluminação acesa durante a noite, ela é o espaço preferido dos skatistas e patinadores que fazem do local uma grande área de convivência e esporte.

Os espaços culturais do Ibirapuera

Em um dos extremos da Marquise está o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, mais conhecido como Pavilhão da Bienal, que abriga desde 1957 a mais celebrada mostra de artes visuais do país, a Bienal de São Paulo, e mais recentemente outros eventos como a feira SP-Arte. O pavilhão, um enorme bloco retangular de três pisos e área de 25 mil m2 chama mais atenção em sua parte interna do que externa. Com mezaninos de desenhos curvos e imponentes rampas que ligam os andares, o pavilhão apresenta salões de pé direito duplo ou triplo e vale a visita mesmo quando não abriga exposições.

Área interna do pavilhão da Bienal – foto: Marcos Ferraz

Outro edifício do parque que se destaca por seus espaços internos, com características que dialogam com as do prédio da Bienal, é o Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, a Oca. Mas é sua aparência exterior, resultado da planta circular e do prédio em formato de cúpula, que certamente mais chama a atenção, o que resultou no apelido pelo qual o espaço é mais conhecido. A Oca, que já abrigou museus no passado, hoje recebe exposições temporárias e outras atividades.

Ao lado de fora, parte da Oca está cercada pelo Jardim de Esculturas – com obras de Amilcar de Castro, Franz Weissmann e Iole de Freitas, entre outros – que a conecta ao Museu de Arte Moderna.

Apesar do nome, o MAM, fundado em 1948 e sediado no Parque Ibirapuera desde 1968, reúne principalmente peças de arte contemporânea. No acervo de cerca de 5 mil obras estão trabalhos de Candido Portinari, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Lívio Abramo, Mira Schendel, Lygia Pape, Leonilson, León Ferrari, Thomaz Farkas, German Lorca, Nelson Leirner e muitos outros.

A Oca vista do parque – foto: Marcos Ferraz

O MAM abriga também o agradável restaurante Prêt, uma das opções para almoço no parque, com vista para o Jardim de Esculturas.

Opções mais baratas, localizadas em outros pontos do parque e que servem lanches, sucos e alguns pratos são o Sabor Ibira, o Praça da Paz e a Lanchonete Planetário. Há ainda dezenas de ambulantes vendendo salgadinhos, sorvetes, refrigerantes e água de coco espalhados pelo Ibirapuera.

O Museu de Arte Contemporânea (MAC), do outro lado da avenida Pedro Álvares Cabral (atravesse pela passarela Ciccillo Matarazzo) abriga o restaurante VISTA na cobertura e café no primeiro andar, mas os preços são bastante elevados.

O MAC, museu vinculado à Universidade de São Paulo e sediado no Ibirapuera desde 2012, abriga um valioso acervo de cerca de 10 mil obras, principalmente de arte moderna – também apesar do nome da instituição. No grandioso edifício que funcionou décadas como sede do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) estão reunidas obras dos estrangeiros Pablo Picasso, Marc Chagall, Paul Klee, Wassily Kandinski e Amadeo Modigliani e dos brasileiros Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Alfredo Volpi, Valdemar Cordeiro, Regina Silveira e Carmela Gross, entre tantos outros. Após ver as exposições, não deixe de ir ao terraço ver a vista privilegiada para o parque e para a cidade.

Fachada do MAC – foto: Felipe Barradas

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História, cultura, música e ciência

Fundado e dirigido pelo artista plástico e curador baiano Emanoel Araújo, o Museu Afro Brasil é outro local de visita imprescindível no parque. Inaugurado em 2004 no Pavilhão Padre Manuel da Nóbrega – no outro extremo da marquise em relação ao prédio da Bienal –, o museu conserva um precioso material sobre as culturas africana e afro-brasileira. Entre as mais de 6 mil peças do acervo estão obras de arte, fotografias, documentos e peças etnológicas que, ao abarcar temas como religião, arte, trabalho, diáspora africana e escravidão, revelam a importância das matrizes africanas na formação da identidade brasileira. Fique de olho também nas exposições temporárias no site da instituição.

Parte do projeto original, mas construído apenas em 2005, meio século após a inauguração do parque, o Auditório Ibirapuera é hoje um dos espaços mais destacados na cena musical paulistana, com espetáculos de música popular ou erudita, de artistas jovens ou consagrados. O edifício, um grande bloco branco em forma triangular, abriga um teatro para 800 pessoas, com palco que pode ser aberto também para um grande gramado do parque. Na entrada do auditório, uma marquise vermelha – que com seu formato curvo remete a imagem de uma língua – dá um ar imponente para o edifício, especialmente com a iluminação noturna nos dias dos espetáculos.

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O Auditório Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer – foto: divulgação

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Entre os espaços culturais do parque, há ainda dois edifícios que não foram projetados por Oscar Niemeyer. Em uma área pacata na beira do lago está o Pavilhão Japonês, um espaço peculiar no contexto do Ibirapuera. Projetado e construído no próprio Japão, no estilo tradicional shoin, o edifício foi transportado de navio e instalado no parque em 1954 como presente do governo japonês e da comunidade nipo-brasileira para a cidade de São Paulo. Ao redor do pavilhão, com sua estrutura de madeira e paredes brancas, um típico jardim nipônico divide espaço com o lago de carpas. O espaço vale a visita, que custa R$ 10, independentemente das esporádicas exposições que recebe.

O outro prédio do Ibirapuera que não tem a assinatura de Niemeyer é o planetário Professor Aristóteles Orsini, inaugurado em 1957 e primeiro espaço do tipo no Brasil. O edifício, com sua arquitetura de traços futuristas, fica aberto ao público durante os fins-de-semana, tendo programação restrita para escolas nos outros dias. Por fim, o parque abriga ainda importantes monumentos e esculturas espalhados por suas áreas, como o Obelisco e o Monumento às Bandeiras.

O Pavilhão Japonês – foto: Marcos Ferraz

Dada a quantidade de coisas para ver e fazer, além de agradáveis espaços para “nada fazer”, o Parque Ibirapuera é um lugar que certamente vale a um turista mais de uma visita – se a duração da viagem permitir. Já para milhares de moradores ou frequentadores assíduos de São Paulo, pode-se dizer que o Ibirapuera se tornou ponto de visitação rotineiro. Pois, assim como a metrópole paulistana, o Ibirapuera é vibrante e está sempre em movimento. Ali, no entanto, há também espaço para contemplação e respiro.

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