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Foto 1 – Região dos parques de Palermo vista de cima. FOTO: Divulgação

Uma semana no verão de Buenos Aires

Marcos Grinspum Ferraz

Quando comentei com amigos que iria passar uma semana em Buenos Aires no início de janeiro ouvi repetidas vezes a mesma pergunta: “Mas por que no verão?”. Parece que, ao menos entre brasileiros, há uma ideia difundida de que a cidade argentina é mais agradável (e talvez charmosa) no inverno. Seria o período ideal para comer parrillas e alfajores, tomar vinhos, ir a museus e passear agasalhado pelas ruas portenhas.

Buenos Aires

Buenos Aires à noite | Pixabay

Mas por que não fazer essas mesmas coisas – sem agasalhos – no verão, quando os dias escurecem mais tarde, os bares e restaurantes espalham suas mesas pelas calçadas e o clima está perfeito para aproveitar os belos parques da cidade?

É sempre possível trocar o vinho tinto pelo branco ou por uma cerveja gelada (há cada vez mais cervejarias artesanais em Buenos Aires), o alfajor por um bom sorvete de doce de leite (heladerias se espalham por todos os cantos) e, se estiver muito calor, nada melhor do que uma siesta depois do almoço.

Há muito o que fazer na capital argentina, cidade de cerca de 3 milhões de habitantes – 15 milhões na área metropolitana – cheia de história e com intensa vida comercial e cultural.

Escrevo aqui, portanto, sobre o que fiz e vi de melhor numa estada de 7 dias, sem ter a ambição de dar conta de tudo o que a megalópole pode oferecer para os mais variados tipos de visitantes.

Considerando a vastidão de Buenos Aires, comprar um guia turístico pode ser recomendável. E não deixe de acompanhar a programação cultural em sites e jornais locais e nas páginas das principais instituições.

Centro portenho e Costanera Sur

Caminhar pelas ruas movimentadas do centro – especialmente nos bairros de Montserrat e San Nicolás –, com seu comércio intenso, edifícios históricos, cafés e restaurantes, é um bom começo para sentir o clima da cidade e observar sua agitada vida urbana.

Ruas como a Florida e a Lavalle, com calçadões fechados para carros, e avenidas como a Corrientes e a Córdoba borbulham de pedestres, entre turistas que observam a paisagem e portenhos que caminham apressados em meio ao seu cotidiano.

A Casa Rosada, sede da presidência. FOTO: Divulgação

Por ali estão alguns dos mais ilustres edifícios da cidade, como a Catedral Metropolitana, o Centro Cultural Kirchner (fique de olho na programação de exposições e shows), a bela Galeria Guemes e a Casa Rosada – localizada em frente a Praça de Maio, palco de importantes atos e manifestações ao longo da história do país.

Caminhando a partir dali pela avenida de Maio pode-se visitar ainda o Congresso Nacional e o Palácio Barolo, com sua arquitetura eclética bastante peculiar.

O Cabildo, uma das atrações de Buenos Aires em torno da Plaza de Mayo

Na Praça do Congresso está localizada também a Associação das Mães da Praça de Maio, que abriga um agradável café e lanchonete. Fundada por mães de mortos e desaparecidos políticos da época da ditadura militar argentina, a associação é uma das mais ativas organizações políticas de esquerda do país.

Ali ao lado, na rua Virrey Cevallos, o restaurante peruano Status é uma boa opção para quem quer variar o cardápio na capital portenha.

A avenida Corrientes abriga os grandes teatros comerciais da cidade – uma espécie de Broadway portenha – e leva até o imponente obelisco da avenida 9 de Julio.

Para os portenhos, a 9 deJulio é a avenida mais larga do mundo – foto: jmpznz/CC

Esta via, considerada uma das mais largas do mundo, tem no nome a data de declaração da independência do país (9 de julho de 1816) e percorre alguns dos mais importantes bairros centrais da cidade. Ao longo dela estão localizados não só o obelisco, mas diversos cafés, restaurantes, grandes hotéis, uma simpática praça com a estátua Adolfo Alsina e o mais importante teatro portenho (e argentino), o Colón.

Se todos esses trajetos e visitas podem ser feitos igualmente nas quatro estações do ano, um passeio na Reserva Ecológica Costaneira Sur é especialmente agradável no verão. Ao atravessar alguma das pontes que saem de Puerto Madero – região revitalizada e cheia de bares e restaurantes de alto padrão –, em poucos minutos nos deparamos com esta vasta área verde que rapidamente nos faz esquecer o quão perto estamos do centro.

Prédios do centro vistos da reserva Costanera Sur. FOTO: Divulgação

A reserva, que abriga uma enorme diversidade de espécies de pássaros, é mais “selvagem” do que outros parques da cidade (dos quais falaremos mais à frente). Através de suas trilhas, que mais parecem estradinhas de terra, chega-se à beira do Rio da Prata, com locais para apreciar a vista e áreas com mesinhas e cadeiras para fazer um pic-nic ou descansar. Fiz este trajeto de bicicleta, transporte muito utilizado em Buenos Aires – cidade quase plana e com o traçado das ruas em xadrez –, mas o passeio pode igualmente ser feito a pé.

Boca e San Telmo

Partindo da área central para o sul, chegamos ao bairro de San Telmo, um dos mais antigos da cidade, com parte de sua arquitetura colonial preservada.

Região boêmia, com muitos cafés tradicionais e restaurantes, San Telmo é também a morada de centenas de antiquários com todos os tipos de objetos – livros, móveis, louças, talheres, tapetes, roupas, instrumentos musicais etc.

San Telmo no dia de sua tradicional feira de rua. FOTO: Divulgação

É ainda um bairro ideal para caminhar sem pressa, perder-se por ruas como Defensa, Bolivar e Balcarce e reservar algum tempo para contemplar a agradável Praça Dorrego, com seu ar de praça de cidade do interior. É nela que, aos domingos, ocorre a tradicional feira de rua de San Telmo, que além de reunir barracas de antiguidades, artesanatos e produtos locais fica repleta de artistas de rua que se apresentam nos arredores.

San Telmo abriga dois importantes museus da cidade: o MAMBA (Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, uma instituição fundada em 1956, dedicada à arte moderna e contemporânea e que reúne em seu acervo obras de grandes artistas argentinos e estrangeiros do século 20; e o seu vizinho caçula, o MACBA (Museu de Arte Contemporânea de Buenos Aires), um espaço menor aberto em 2012 e dedicado à arte contemporânea.

Na feira de San Telmo, artistas de Buenos Aires expõem sua produção original – foto Muita Viagem

Foi nesta região que fiz algumas das melhores refeições da viagem. Na rua Bolivar, junto à entrada do Mercado de San Telmo – que mesmo tendo se tornado muito turístico vale a visita –, o pequeno e despojado Nuestra Parrilla, chamado pelos locais de Lo de Freddy’s , serve o melhor chorizo (semelhante à linguiça brasileira) que comi. Além do choripan (pão com chorizo), os sanduíches de outras carnes também são imperdíveis.

No mesmo bairro, um restaurante menos informal, mais caro, mas ainda acessível, é o Gran Parrilla del Plata, que serve todos os tipos de carne argentina da melhor qualidade. Ali perto, ao lado da Praça Dorrego, a Birreria Funes tem no cardápio algumas das melhores cervejas artesanais que experimentei na cidade. Se preferir, a Funes tem sede também em Chacarita, próximo ao bairro de Palermo.

Mais ao sul, San Telmo faz fronteira com o bairro de La Boca, conhecido internacionalmente por sediar o clube de futebol Boca Juniors, time de maior torcida no país, e por suas pequenas casas coloridas construídas em madeira, telhas ou placas de metal.

Bairro operário habitado a partir do fim do século 19 por imigrantes espanhóis e italianos, a Boca teve algumas de suas ruas revitalizadas a partir dos anos 1950. Uma delas abriga o Caminito, uma “rua museu” que, além das casas restauradas e pintadas, está repleta de decorações e murais nas paredes, vários deles relacionados às lutas políticas.

Casas coloridas no Caminito, no bairro da Boca. FOTO: Divulgação

O caminho para o (bastante turístico) Caminito passa por dois agradáveis parques. O Lezama, ainda próximo a San Telmo, é um dos mais antigos da cidade e abriga o Museu Histórico Nacional. Com suas escadarias, monumentos e anfiteatro, o parque fica cheio até tarde nas noites de verão. Já o Parque Flora Nativa Benito Quinquela Martin, inaugurado em 2006, é vizinho do célebre estádio da Bombonera, sede do Boca Juniors que abriga um museu multimídia e tem suas arquibancadas abertas à visitação.

Ao lado do Lezama, na esquina com a rua Defensa, dois restaurantes tradicionais, o Bar Británico e o El Hipopotamo, são boas opções para uma refeição, café ou cerveja. O bairro da Boca abriga também, já próximo ao Rio da Prata, a Usina del Arte, um amplo espaço cultural sediado em uma antiga usina elétrica do início do século 20. Fique atento à intensa programação de música e exposições.

Ao norte, Retiro, Recoleta e Palermo

Se já citamos dois parques e uma vasta reserva ecológica na cidade, é na verdade na região mais ao norte que estão as áreas mais verdes de Buenos Aires. Já no bairro do Retiro, vizinho ao central San Nicolás, uma série de quatro praças “enfileiradas” – da San Martin até a Canadá – marcam a passagem para regiões mais nobres e arborizadas da cidade, repletas de praças e grandiosos parques.

A Praça Intende Alvear, na Recoleta. FOTO: Divulgação

A Recoleta, com prédios desenhados em diversos estilos arquitetônicos dos séculos 19 e 20 – ecléticos, neoclássicos, art nouveau, art decó e modernistas –, reúne uma vasta área com praças e parques permeados por importantes edifícios públicos da capital. Entre eles estão a Faculdade de Direito, o Museu Nacional de Belas Artes (com rico acervo de obras europeias e latino-americanas), o Centro Cultural Recoleta (com programação intensa nas mais variadas áreas artísticas), a Basílica Nossa Senhora do Pilar e o célebre Cemitério da Recoleta.

Em frente ao cemitério, que com mausoléus e esculturas dos mais variados estilos é por si só uma espécie de museu ao ar livre, uma feira de artesanatos toma as ruas e praças da região aos sábados. No verão, turistas e locais se espalham pelos gramados ao redor das barracas para conversar, tomar sol ou comer um bom helado portenho. Duas das marcas mais conhecidas da cidade, Freddo e Volta, tem lojas por ali, mas vale a pena pesquisar também outras sorveterias – ouvi falar muito bem da Scannapieco, da Cadore e da Buffala.

Ainda na Recoleta, não deixe de ir ao El Ateneo Grand Esplendid, considerado por muitos a livraria mais bonita do mundo. O edifício de arquitetura eclética foi aberto em 1919 como um teatro e funcionou posteriormente como cinema. Hoje, com suas estantes de livros e discos iluminadas, mantém as características arquitetônicas originais, entre elas o teto em cúpula com afrescos pintados pelo italiano Nazareno Orland. A livraria está localizada na comercial avenida Santa Fé, que também vale a caminhada.

A Livraria El Ateneo Grand Esplendid. FOTO: Divulgação

Mais ao norte, Palermo, é o verdadeiro “pulmão verde” de Buenos Aires. Somente o Parque 3 de Fevereiro, o maior da região, possui cerca de 250 mil metros quadrados de bosques, jardins e lagos. Mas há ainda os seus vizinhos Jardim Botânico – inaugurado em 1898 e que reúne cerca de 6 mil espécies vegetais –, praças como a Intendente Seeber, a Alemania e a Almirante Gonzáles Fernández, o parque Las Heras e uma série de espaços esportivos que fazem de Palermo um sem fim de áreas verdes.

O Parque 3 de Fevereiro, conhecido também como Bosques de Palermo, é um espaço com variados equipamentos culturais e de lazer – que nos lembra por vezes o paulistano Parque Ibirapuera. Ali estão o Jardim Japonês, com vegetação típica, lago de carpas, biblioteca e restaurante tradicionais; o Planetário Galileu Galilei; o belo jardim de rosas (Rosedal); o Centro Cultural Islâmico King Fahd; o Museo Sívori; e uma série de esculturas e monumentos espalhados pelo parque. Para comer, o agradável e recém-recuperado Paseo de la Infanta reúne restaurantes, bares, sorveterias, cafés e lanchonetes.

O Rosedal, no Parque 3 de Fevereiro. FOTO: Divulgação

É também em Palermo que está localizado o mais marcante – na opinião deste que escreve – museu da cidade, o MALBA (Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires).

No expressivo acervo de arte moderna e contemporânea latino-americanas estão obras (de peso) de nomes como Joaquín Torres-García, Frida Kahlo, Diego Rivera, Antonio Berni, Xul Solar, Fernando Botero, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Hélio Oiticica e tantos outros. A instituição apresenta também vasta programação de exposições temporárias, organiza debates, lançamentos editoriais e exibe filmes raros em seu cinema.

Seguindo ao norte após os parques de Palermo, as áreas verdes seguem no bairro de Belgrano, mais ao norte, chegando até o Parque de la Memória – criado em homenagem às vítimas da ditadura militar –, o estádio Monumental de Nuñes, do River Plate, e o Parque de Los Niños. Neste último, à beira do Rio da Prata, a prefeitura monta durante o verão uma grande praia artificial de areia, com sombrinhas, cadeiras e chuveiros, além de organizar atividades esportivas e culturais.

Em Palermo, na parte “urbana”, agradáveis ruas comerciais perto das praças Julio Cortazar e Imigrantes de Armênia abrigam uma série de lojas e restaurantes com preços medianos ou altos. Citando apenas os que frequentei estão o Lo de Jimena – típica parrilla de bairro bem barata para a região –, o mais rebuscado La Cabrera, com ótimas carnes, e a boa hamburgueria Burger Joint.

O Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires. FOTO: Divulgação

Balvanera, Almagro e Caballito

Por fim, alguns bairros menos turísticos da cidade, que se distanciam um pouco do Rio da Prata em direção ao leste, apresentam uma Buenos Aires bastante viva e genuína, com comércio mais popular e diverso e uma série de opções de vida cultural.

Nos vizinhos Balvanera e Almagro, por exemplo, onde reside boa parte da comunidade judaica portenha – Buenos Aires tem a maior população judia da América Latina –, vendas, bares e restaurantes se espalham pelas avenidas e arredores de praças. Um deles é o Benaim, que serve falafel, shawarma, kebab e um apetitoso sanduíche de pastrami, além de boas cervejas artesanais.

Ali perto está a Ciudad Cultural Konex, amplo espaço com programação de shows, teatro e exposições. Às segundas-feiras, os já tradicionais e espetaculosos shows da banda de percussão e improvisação La Bomba de Tiempo lotam o pátio do Konex.

Não muito longe estão localizados ainda dois importantes museus de Buenos Aires: o Carlos Gardel, na casa onde viveu o célebre cantor e compositor de tango; e o Xul Solar, dedicado a um dos mais importantes artistas modernos argentinos.

Parte do salão da casa de tango La Catedral. FOTO: Divulgação

TANGO E MILONGA EM BUENOS AIRES

Por esses bairros da cidade estão também alguns dos mais tradicionais – e menos turísticos – espaços dedicados ao tango e à milonga.

O La Catedral é um enorme salão com pé direito alto e com ares de casa abandonada que vale a pena conhecer. Oferece aulas de tango e apresenta shows, além de ter um bar que dá o ar boêmio do lugar.

A poucas quadras dali está o pequeno Boliche de Roberto, bar com shows de tango mais alternativos (com pequenas formações), que se tornou um clássico da vida mais underground da cidade. Não deixe de tomar o Fernet Cola, mistura de Coca-Cola com a Fernet Branca, bebida que apesar da origem italiana se tornou popular na Argentina.

Em Caballito, bairro ainda mais a leste, estão outros locais que foram bastante recomendados – mas que não cheguei a ir – como o Mercado del Progreso, fundado em 1889, e o Parque Centenário, espaço com mais de 100 mil metros quadrados que abriga o Museu de Ciências Naturais e o Anfiteatro Eva Perón.

Com tanto o que ver e fazer, em uma metrópole grandiosa e ainda assim acolhedora, Buenos Aires é um lugar onde pode-se passar tanto um par de dias quanto várias semanas. Após conhece-la melhor, há também quem acabe querendo viver por lá.

Marcos Grinspum

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